Follow Us @soratemplates

domingo, 19 de agosto de 2018

Ai, o nosso Roque Santeiro!

agosto 19, 2018 0 Comments

O nosso Roque Santeiro –

Aquele Roque que existiu na cidade de Luanda, no município do Sambizanga (vulgo, Mbilá ou Mbicoio), município onde nasceu o nosso presidente Eng. José Eduardo dos Santos. O Roque, aquele que viu a crescer o Estado, sim, o Estado maior do Kuduro, Nagrelha dos Lambas. Uma das figuras mais importantes do nosso ritmo musical, Kuduro.
O nosso Roque era o maior hipermercado de Angola. Onde fazíamos compras a qualquer dia do mês. Quem era o Belas Shopping, a Shoprite, o Mega, o Kero, o Kibabo, o Alimenta Angola – que nem alimenta sequer 1/3 da população nacional – diante do Roque? Não eram nada. Esses não eram páreos para o nosso Grande Roque.


Recordam do Roque?  O Roque recebia todo mundo. Não fazia segregação social/racial. Onde cada um tinha privilégio de criar o seu próprio negócio. Onde os licenciados, mestres e doutores eram recebidos mesmo sem experiência profissional. No tempo do Roque as pessoas abandonavam os seus monótonos e desgastantes empregos – porque não suportavam a exploração e alienação do trabalho e a mais-valia por parte do chefe capitalista.
No tempo do Roque não havia Crise. Não consumíamos mais do que ganhávamos. Tínhamos a cesta básica com 10% do nosso salário. Não era necessário estudar os conceitos da Economia, o Roque nos dava de bónus.

Comprávamos roupa a preço de banana. Todos nós “grifávamos” bué. Entrava-se feio, saía-se bonito.  O Roque não só era o nosso maior centro comercial, era também um espaço de difusão cultural. Lá facilmente encontrávamos traços culturais de culturas indígenas. O Roque acolhia até estrangeiros.

De tudo tinha. “Nós éramos felizes e não sabíamos”, como diz a máxima a popular.
Mas a nossa elite governante acabou com a nossa banga. Despiu-se totalmente dos sentimentos, vendou os olhos para valores sócio-culturais. Nem sequer pensou na capacidade de aquisição financeira da maioria e agiu como um homem traído.
A nossa elite governante não aguentou uma luta justa, esqueceu-se que a “modernização” como diz Samuel P. Huntington “gera sentimentos de alienação e anomia quando os laços tradicionais e as relações sociais se quebram”. Matou o Roque Santeiro, disparando uma quantidade industrial de balas no seu corpo.
Ignorantemente, a elite dominante não sabia que o Roque – sim, o Roque Santeiro – era um salva-vidas de milhares de famílias da nossa sociedade; ao matar o Roque, matou-se o nosso centro de concentração cultural, aumentou-se a procura e reduziu-se a demanda – os supermercados (da elite dominante) não nos preenchem em termos de produtos, o que faz com que na maior parte das vezes compremos coisas que não precisamos. As nossas necessidades, com a chegada dos supermercados, aumentaram e o poder de compra reduziu. Se o nível de pobreza aumenta, aumenta a taxa de delinquência, da prostituição (dispo-me de qualquer tipo de preconceito), aumenta também a taxa de mortalidade.
Não se erradica a pobreza ao se combater contra o pobre.

Texto de: EU